quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Aureliano e amigos prestam homenagem a Chico B.
Não encontramos.
Então pedimos à estagiária da editora que buscasse caricaturas recentes do sujeito na web.
A garota, estudante de artes plásticas, escolheu uma que destacava os olhos, mas achamos que algumas leitoras poderiam não entender a imagem como homenagem sincera.
Insistimos para que procurasse mais, lembramos do futebol como tema da busca, apesar do sujeito ser muito fraco, também no nobre esporte bretão.
Gostamos do resultado, mas de novo achamos que a mulherada poderia não gostar. Tem aquelas que não gostam de futebol, tem outras que certamente queriam uma imagem com mais detalhes onde o rosto aparecesse um pouco mais. Deu polêmica na editora, pois vários argumentaram que o desenho minimalista era, apesar de tudo, rico em detalhes: a bola está fugindo do controle do jogador, os cabelos com as raízes brancas, as olheiras, os vincos no rosto...
Pedimos mais uma, mas ela, por não conhecer bem o Chico, tinha feito mais uma escolha infeliz. Alguém ainda tentou explicar_ "Para as mulheres, o Chico está além do que se vê!"
Ao concluir a frase, o comentarista infeliz percebeu os olhares fulminantes de vários colegas que, imediatamente, passaram a desconfiar de sua masculinidade.
Por instantes, o clima ficou pesado na editora.
Aí lembramos do "paparazzi" que vagueia pelo Rio de Janeiro e que tentou fotografar o Elme Bastos, nosso querido colaborador, no dia em que o Jesus Luz esteve na praia, em frente à Garcia.
Conversamos com ele para avaliar as possibilidades de uma foto exclusiva.
Ele nos disse que o Chico está muito velho, muito recluso, mas que iria tentar.
Oferecemos como recompensa, 2 entradas para o próximo jogo do FLU no Maracanã, mas ele dispensou.
Mandou-nos a foto, hoje pela manhã.
Foi tirada em um show beneficente na véspera, onde o Chico deu uma canja.
Leitoras, não precisam agradecer!
O FALO & EXPLICITO presta a sua homenagem ao grande símbolo sexual que vagueia nos corações e mentes da mulherada.
Até porque uma imagem vale por mil palavras...rsrsrsrs
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Chica e Elme: EPÍLOGO
Chica tinha ficado desconcertada, mas suas amigas entendiam que ela tinha que se manter firme, que o melhor seria deixá-lo sem resposta.
Entre altos e baixos, ela estava se sentindo mais forte, sem alguém como ele que mordia e assoprava, que beijava e reprimia qualquer chance de aproximação, qualquer chance de acolhimento.
Aspira Chica se convencera de que era feita de pedra dura.
Pobre dos infelizes que cruzaram seu caminho. Ela tinha munição para todos.
Estava exausta do personagem e não sabia.
Tinha amigas, amigos, ficantes, cigarros e destilados.
Após uma noitada de fim de semana, chegou de madrugada em casa com um carinha para trocar um amasso, acordar no domingo, inventar uma desculpa qualquer e mandá-lo andar.
Como hábito dos que moram sozinhos, olhou para a secretária eletrônica para contar as ligações.
Eram 8!
A maioria de seus amigos estava no bar com ela e sua mãe lhe ligara para o celular, à meia noite dizendo que ia dormir e sugerindo que ela não bebesse... mãe é tudo igual, ela sabia.
Quem teria ligado tantas vezes ou porque tantas pessoas teriam ligado em tão pouco tempo?
Se agisse como os homens agiriam, ouviria os recados no domingo, depois de se livrar do carinha.
Se agisse como as mulheres agiriam, disfarçaria e ouviria pelo menos algum deles caso tivesse uma chance.
Como tinha virado pedra dura partiu para o amasso...
Domingo de ressaca, após dispensar o rapaz nem se lembrou da secretária eletrônica...
Foi sair com as amigas, durante o almoço acabou lembrando dos recados, mas não quis comentar com elas.
Voltou para casa sozinha, pra lá das 8 da noite.
A secretária apontava 9 recados.
Todos eram do Elme, que havia voltado naquele sábado, bem tarde e, ao que parece, queria saber como ela estava...
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Chica e Elme Capítulo IV : O telefone tocou novamente...
Estava desarmado, o ego espetacular murchara e ele estava sem aquele viço costumeiro.
Trabalhando longe de casa e longe do afago carinhoso das mulheres que o assediavam, insistentemente, no Rio de Janeiro, os quase 2 meses cobravam seu preço.
A mãe e a irmã que sempre o adularam, tinham viajado num cruzeiro de navio pela costa brasileira do Rio a Montevidéu. Estava frio por lá, chovia e elas estavam horrorizadas com a roubada em que haviam se metido.
Quando falavam com Elme , não queriam saber de como ele estava e sim falar de como elas estavam...
Não tinha sido assim, que Elme havia sido criado por elas!
Pobre Elme!
Confinado na gaiola do que realmente era, sua voz estava um fiapo.
0-2-1-2-1-2-2-6-6-..-..-..-..
Trimmmm! Trimmmm! Trimmmm! Trimmmm!
Sclap, tlap, scalap!
-ALÔ...DEIXE SEU RECADO!
Elme desligou rápido, era muito mico deixar qualquer recado decente para Chica, com a voz insegura!
Saiu do hotel, tentando se distrair.
A cidade não ajudava, os papos e as pessoas também não...
Após 2 horas de desânimo, voltou para o hotel, sentou na cama, olhou para o telefone com aquela insegurança típica de quem não quer repetir um gesto de desamparo.
O pior de um gesto desses, não é expor para terceiros. Não era o caso, estava sozinho.
O pior era expor seu estado, a si mesmo.
Elme trancou a porta do banheiro e a porta do armário, evitava assim se olhar no espelho, cair em si, ver-se naquele estado lastimável.
Sentia saudades da Aspira Chica de Holanda e Vodka!
Sentia saudades da Aspira Chica Prosseco Gelado!
Sentia saudades da vizinha especial que não saía de sua cabeça: Chica Dá Silva!
Nunca na história daquela cabeça espirituosa e daquele coração duro, se sentia arrebatado, por uma “porra loca” feito ela.
O álcool lhe deu coragem e inspiração.
Ia pedir uma chance de reconciliação!
Pobre Elme!
0-2-1-2-1-2-2-6-6-..-..-..-..
Trimmmm!!!
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
1 mais 1: Confesso que vivi

Sem que suspeitassem, se entrelaçaram.
Sem que percebessem, se apaixonaram.
E viveram os meses e os anos seguintes,
Completamente entorpecidos,
Pela presença de um no corpo do outro.
Ele começou a sentir que em volta deles havia um aquário.
Que os guardava do resto do mundo.
E as tardes do meio da semana eram feitas para vê-la.
E os almoços para olhá-la.
E as noites para abraçá-la.
Esse encontro transformou indelevelmente suas vidas
Nunca na história daqueles dois ...
...o jornal de domingo foi tão compartilhado
...e a vida foi tão vivida
...e o gozo foi tão profundo
Confesso que vivi,
Muito mais do que sabia ser capaz ...
Aureliano Mailer também observa o Céu e a Lua
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
A Última Mente: Segundo Capítulo

Napoleão Bonaparte tinha critérios para escolher aqueles que iriam lutar ao seu lado e ajudá-lo na conquista de inúmeras regiões da Europa:
- os inteligentes e medrosos eram preparados para serem generais
- os inteligentes e impetuosos eram preparados para comandar os pelotões
- os desprovidos de inteligência e bem mandados serviam para soldados
- os desprovidos de inteligência e impetuosos eram imediatamente dispensados, porque só faziam m@*&$!!!!
Na empresa onde a auxiliar de escritório, quase suicida, conspirava contra sua própria vida, trabalhava um gerente que não seria admitido para participar do exército de Napoleão.
Quando menino tinha sido brigão.
Enquanto a rudeza pode lhe proporcionar triunfos pueris, foi vivendo.
Durante a adolescência os problemas começaram, seus amigos iam evoluindo e ele ficando.
Apesar de tudo, tinha um incomum instinto de sobrevivência.
Esse instinto foi capaz de guiá-lo num dilema existencial: opinar ou calar.
Dada à sua fragilidade intelectual, soube entender que a primeira opção o marginalizaria socialmente e a rejeição o jogaria em direção à violência.
Ficaria com a segunda opção mas, calar, o condenaria à insuportável segurança da sombra.
Entrou no ambiente profissional pela porta dos fundos.
Começou a namorar a filha de um gerente da confiança dos patrões de uma empresa bem sucedida.
Conseguiu domesticar sua antiga rudeza e impetuosidade, convertendo-a numa vontade irrefreável de saber a opinião dos que detinham o poder.
Saber o que eles falavam e saber o que eles pensavam, tornou-se sua obsessão.
Ouvia-os atentamente.
Longe deles, repetia as palavras como fossem ... suas palavras!
Tornou-se o mais bem acabado puxa-saco da empresa!
Nisso, era impressionante e, se sua trajetória tivesse terminado bem, seria uma lenda para gerações.
E os donos não sabiam, o que Napoleão sabia.
A empresa correria riscos no momento em que ele passasse a tomar decisões, sozinho.
sábado, 15 de agosto de 2009
Papai Noel responde a Elme Bastos

Elme Bastos,
Se tem alguma coisa que me irrita muito, são criancinhas me escrevendo cartinhas melosas.
Primeiro, porque pela idade muitas não sabem escrever e os pais, geralmente as mães, fazem uma regressão idiota se fazendo passar por elas.
Depois pelos retratinhos que enviam, que geralmente são “qualquer coisa”.
Elme você acha, que assinar como Elminho e mandar essa fotinha onde você se parece mais com um filhote albino de orangotango, ia me deixar comovido?
Você errou e muito!
Estamos no verão no Hemisfério Norte, eu estou de férias e não gosto de ser incomodado nesse período.
Bilhetinhos imbecis como o seu, obrigam as minhas assistentes, todas ex-playmates, a deixar de me atender para pesquisar um pouco sobre quem está me escrevendo.
Elas são louras, lentas na compreensão e no entendimento, e acabam ficando muito nervosas porque sou exigente.
Tudo isso traz um stress absolutamente inadequado, em nossa idílica comunidade, e a tudo que me proponho a desfrutar nessa época do ano.
A pesquisa se faz necessária porque tenho alguns critérios básicos.
E ENTRE ELES: SÓ DAR PRESENTES PARA QUEM TEM GRANA!
NÃO! Não me diga que não sabia, Elminho!
Soube que você já passou dos trinta, morava na casa de seus pais até bem pouco tempo atrás e que é muito exagerado quando fala a seu respeito.
Porra Elme! Ficar mentindo para Papai Noel, dizendo que foi abandonado pela mãe e que é rejeitado pelo pai!
Ainda assim, fiquei refletindo sobre essas questões de veracidade na internet e sobre o que as pessoas escrevem a respeito de si mesmas.
Você me parece um homem do seu tempo!
Resolvi lhe dar uma chance, mas pare de mandar bilhetinhos babacas.
Aliás me diverti com suas estórias e acho você mais bem humorado do que a mulherada que anda escrevendo por aí.
Abraços
P.N.
Elme Bastos adorou a resposta de Papai Noel e continua sonhando com sua futura madrasta...
terça-feira, 4 de agosto de 2009
A Última Mente: Primeiro Capítulo

Sem dúvida, seu bilhete de despedida começava tão mal, quanto ela terminava sua vida.
Ambos, bilhete e existência, cheios de erros primários.
Definitivamente, a Língua Portuguesa não era o seu forte.
Ainda assim, mesmo naquela situação crítica, ela não desejava se expor com um bilhete mal escrito.
Seu manual de sobrevivência social havia lhe ensinado a ser discreta e acompanhar o senso comum.
Naquele escritório, naqueles dias não houvera nenhum outro bilhete de despedida para acompanhar ou, discretamente, copiar.
Portanto ela estava desesperada, só e insegura com a gramática!
Mais com ela (a gramática) , do que com o conteúdo do bilhete e do que com o dramático gesto que se propusera a fazer.
Amassou o bilhete, recém iniciado, jogou-o na lixeira e correu para o banheiro antes que desabasse na frente dos colegas de trabalho.
Ao entrar, girou a tranca e iniciou um choro dolorido e descontrolado.
Algumas colegas bateram à porta, perguntando-lhe se estava bem.
Era óbvio que não estava mas, se recompôs e disse que sim.
Ficou um pouco mais de tempo, trancada.
Na pressa, não havia trazido o estojo de maquiagem e a alternativa para substituir a sombra escorrida pelas lágrimas, foi lavar o rosto.
Repetiu a operação várias vezes até que a vermelhidão dos olhos, também diminuísse de intensidade.
Assoou o nariz várias vezes, e retornou à sala junto aos demais colegas.
Questionada sobre o que acontecia, culpou uma briga passageira com o namorado e disse que já estava melhor.
Era final de expediente e ela em breve estaria longe dali , sem a pressão que aquela tarde no escritório lhe impusera.
De cabeça ainda baixa, abriu o Word e digitou:
A Deus mundo cruéu.
Os sublinhados sob as palavras se destacaram.
Clicou em Revisão e a seguir em Ortografia e Gramática.
Primeiro confirmou com Alterar em cruéu e a frase resultante: A Deus mundo cruel, ainda parcialmente sublinhada, merecia mais reparos.
A seguir, confirmou com Alterar em A Deus. O Word definiu: O Deus mundo cruel!
Insistindo um pouco mais tentou: Ou Deus mundo cruel!
A Revisão estava concluída, mas o resultado não a convencera...
Mais algumas tentativas e, finalmente, chegou a: Adeus mundo cruel!
Começou a rir do resultado alcançado e do alívio gerado.
Ergueu a cabeça e olhou em volta para confirmar que não a olhavam.
Abaixou-se, pegou o papel amassado na lixeira e, cuidadosamente partiu em pedacinhos minúsculos, a dramática frase tão mal escrita.
A pesquisa levara tempo suficiente para que o expediente terminasse.
Ela teve tempo de retocar a maquiagem, se despedir dos colegas que ainda estavam por ali e sair.
Aureliano Mailer é mau escritor, porém observador atento da alma humana.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada – Epílogo

Eu, de minha parte, para garantir o investimento no assunto, registrei o contrato matrimonial no consulado brasileiro, em Nice.
Ela, para nos capitalizar, vendeu sua parte no Hotel Saint Paul – Brasília.
A personagem Mary Holanda era uma delas.
Mary, enquanto Marialva fazia ponto no hotel da família Swanson, em Brasília. Habilidosa, aproximou-se do futuro marido, único herdeiro de toda a família.
Eram 2 irmãos donos de tudo.
Marialva soube da estória e soube convencer o único sobrinho-quase-herdeiro que, casando-se com ela e tendo um filho, ele convenceria seu tio, de que era homem de verdade e que daria continuidade aos Swasons. Com esse arranjo, se tudo desse certo ele ficaria com ¾ de tudo e sua mãe, com apenas ¼. Marialva deixou claro na ocasião para o sobrinho-quase-herdeiro que ela era suficientemente pragmática para conviver com as preferências amorosas dele, mas aconselhou-o que fosse muito discreto, principalmente com o tio, com a mãe e com os amigos mais próximos de ambos.
Apesar do arranjo entre Marialva e seu parceiro aparentar ser sólido e de ter sido reforçado, primeiro, pelo casamento e, depois, pelo nascimento de um menino, o sobrinho era péssimo em dissimulação.
Ainda em vida, o tio resolveu fazer o testamento.
Deixou tudo para seu sobrinho neto, filho de Marialva, que a essa altura passara a se chamar Mary Holanda Swanson!
Surpreendendo a todos que sabiam do valor envolvido, Mary e o marido, pai de seu filho, com a morte do tio seriam gestores da metade da fortuna da família até que o menino atingisse 26 anos. Ela e seu marido teriam 3/4 das cotas e a sogra teria que engoli-la, com véu e grinalda.
Era óbvio o que Mary Holanda Swanson tinha em mente, quando veio me procurar.
Sua preocupação não era saber se o marido a traía, mas ela sabia que a sogra ia tirar-lhe tudo caso conseguisse provar que o menino não era sobrinho neto de seu recém-falecido-cunhado!
Eu e Mary viramos amantes, mais por ela do que por mim, podem acreditar.
No caso, se eu não tomasse cuidado, eu também seria engolido, na hora em que isso fosse necessário.
Num de nossos encontros, Mary contou-me que poucos meses após o testamento ser registrado em cartório, o tio adoeceu e veio a falecer.
Suspeitei que ela e o marido-sobrinho-quase-herdeiro estivessem envolvidos nisso. Coloquei “pessoa minha” para investigar e, em 6 semanas, foi possível começar a ameaçar o casal com telefonemas anônimos. Devo isso a Bê-Pê, uma amiga que trabalha em educação, mas que podia ser detetive policial.
"Um dia eu lhe pago, Bê-Pê, com juros!"
Advogando para minha promissora cliente, vendi seu carro e com o dinheiro renovei perte do meu guarda-roupa, rapidamente.
Minha aparência, meu cartão de visita, sempre repito.
O marido-sobrinho-quase-herdeiro foi assassinado por um garoto de programa num motel da Barra da Tijuca, após terem tido relação.
Como eu escolhi o motel, as câmeras filmaram a fuga do suspeito e, com o esperma recolhido na vítima, seria fácil encriminar o rapaz.
O rapaz estava apavorado, não lembrava do que acontecera, mas acordara com um “38” em sua mão, com uma cápsula deflagrada, e ao seu lado na mesma cama, o marido-sobrinho-quase-herdeiro-agora-morto.
O cafetão do rapaz, que me devia favores, lhe aconselhou a fugir para Tocantins, até que tudo se acalmasse.
Obviamente, não havia filmagem e o policial que me ajudou com tudo, levou U$ 10 mil.
Um juiz, que escolhi sem que Mary soubesse, exigiu exame de DNA do menino.
Recentemente soube de Mary.
Ela voltou para Brasília e mudou de nome.
Como perdeu a juventude tão apreciada pelos calhordas de Brasília, deixou de ser chamada por lobistas para ser “acompanhante de autoridades”.
Voltou a ser morena. Com a ajuda de um deputado cujo nome não quis revelar chegou a dar, recentemente, uma entrevista para a Revista Piauí, como a inocente coletora de assinaturas Janileny Vieira.
Aos incrédulos, recomendo a matéria publicada com ela: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_34/artigo_1088/Deputado_nao_resiste_a_oncinha.aspx
Dizem que ainda participa de festas no mesmo hotel, onde conhecera seu falecido marido.
Eu por outro lado, fiz a escolha certa.
Ela é somente alguns poucos anos mais velha do que eu.
Ela não sabe que sei, a sua idade verdadeira.
Sei também outras coisas a seu respeito, que por hora não preciso revelar.
Há hora certa para tudo, aprendi a dizer...
Sempre tive uma queda, pelas mulheres mais velhas do que eu.
Sempre me dei bem com elas.
Lembro bem, que ao entrar naquele jogo de pôquer e pedir 3 cartas, não fazia a mínima idéia que ia quebrar a banca.
A cartomante bem que me disse que minha vida ia mudar...
De lá para cá, raspei o bigode, deixo o cabelo bem curto.
O relógio, uso descontraído no pulso direito e no esquerdo uma fita do Senhor do Bonfim, saravá!
Quando morrer já tenho os dizeres para a minha lápide: “Monsieur Wadson Santos, nasceu pobre em Itaúna, viveu rico, em St Tropez”
Ô revuá, Ipanemá!
FIM
terça-feira, 7 de julho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada – Cap 7 (continuação)
Bebemos em silêncio.
Nas telas de TV de plasma 42” um show com blueseiros fazia o fundo musical. Nada que atrapalhasse a conversa.
“E quanto ao pro labore?”, perguntou-me.
“Bem, preciso pesquisar quais são os bens da família, ver registros em cartórios, certidões. Posso cobrar-lhe de início 6 mil e a medida que algumas despesas apareçam, você vai me pagando também”
“Não posso, o que tenho são algumas jóias da família dele, vou tentar vendê-las e lhe falo.”
“Veja bem Mary, as questões reais quase nunca são como as desejamos”, era um toque para checar suas convicções.
“Wadson, vá na internet procure St.Paul Plaza Hotel, em Brasília, é da rede deles! Eu tenho uma Pajero 2004, se quiser fique com ela, venda, faça o que quiser, mas me ajude!”, começando a chorar.
Amoleci, profissionalmente falando.
A cliente estava irresistível, tinha grana em potencial e eu não posso ver uma mulher bonita chorar.
Me aproximei dela, passei a mão em seus cabelos, senti de perto o seu perfume.
Apesar dos pequenos sinais de decadência, Mary usava o melhor perfume que já sentira.
“Posso pedir mais 2 margueritas?”
Ela assentiu com um gesto de cabeça.
Percebi que poderia estar entrando numa furada, mas qual homem solteiro resistiria àquela bela mulher que mentia como poucas?
Estava entrando numa rodada de poker com um 7 e um 8 de espadas na mão, fiquei com elas e pedi outras 3 cartas ...
Lixo À Beira Da Estrada - Cap 7
Poderíamos conversar.
Ela pediu um “margherita”. Decidi acompanhá-la, disposto a selar uma trégua, após o embate no escritório.
Os drinks chegaram.
Ergui minha taça e perguntei: “ Temos algo a brindar? Quer sugerir?”
“Sim, quero brindar o término das dissimulações, das meias palavras! Um brinde à objetividade!”
“Wadson, de agora em diante, me chame de Mary, simplifica o tratamento e eu gosto que me chamem assim”.
“Perfeitamente, mas porque essa mudança?”
“Gostei do seu estilo, você é um jogador, deu sorte e acertou bem mais do que errou”, disse-me sorrindo e completou, “eu preciso de sorte, a vida é um jogo de azar”.
Devolvi o elogio com o meu melhor sorriso.
Com as pontas dos dedos puxei os fios do bigode.
“Mary é preciso conversar sobre os meus honorários, se de fato pretende que eu vá assistí-la.”
Enquanto ela me olhava, prossegui: ”normalmente, trabalhamos com um percentual sobre o que conseguimos para a cliente e para iniciar o trabalho cobramos um pró labore”.
“Wadson, porque você falou em trabalhamos ... conseguimos ... cobramos ...? Pretendo tratar de meus assuntos com uma única pessoa, com aquela que EU ESCOLHER, para defender OS DIREITOS que eu acho que tenho”, Mary mostrava-se mais uma vez, muito decidida.
“Não! Esqueça! É apenas um jeito de falar!”, disse-lhe.
“Mas saiba que na justiça, não se age sozinho. Se fosse assim aquela minha cliente não estaria solta, não haveria cobertura na imprensa e você não estaria aqui.”
“Sim eu posso imaginar perfeitamente, mas não é disso que estou falando”.
“Só quero falar das minhas questões pessoais a uma única pessoa, que estará dedicada, será discreta e comprometida com um sigilo absoluto. Entendeu?”
“Perfeitamente, para mim é simples, porque no escritório não tenho sócios”.
“Pois bem, que percentual é esse?”
“Quatro por cento do que lhe couber, na ação que moveremos, digo, moverei!”
“Bem, eu calculo que mãe e filho tenham um patrimônio de 20 milhões ou mais, entre bens e ações da rede de hotéis que possuem. Eles tem sócios, mas são majoritários em todos os negócios que tenho conhecimento.”
“Mary, pode ser que tudo esteja em nome da sua sogra. Nesse caso havendo o divórcio muito pouco lhe caberia.”
Ela fez uma pequena pausa.
“E se eu lhe dissesse que o patrimônio deles está muito acima de 100 milhões?”
“Nesse caso eu lhe diria que é improvável que tudo esteja no nome dela, a menos que seu marido seja juridicamente incapacitado”.
“Mary me diga uma coisa, a sua sogra é de família rica ou é assim, como eu e você?”
“Não sei, tive pouco contato com ela, ela me evita.”
“Procure saber, precisamos identificar seu ponto fraco. E o neto?”
“Ela sabe que o filho dela não gosta de mulher. Sempre disse na minha cara que meu filho não é neto dela. Agora o menino está crescendo e não se parece nadinha com o meu marido...”
Sorrindo-lhe com malícia falei-lhe: “Mas Mary, é só solicitar a um juiz bem escolhido, que comprove a paternidade do pai, através de um exame de DNA!”
“Wadson, você acha que fui atrás de você porque? Não posso acreditar que você vai abrir mão dessa oportunidade?”
“Dessa CAUSA, você quer dizer.”_ retruquei.
“Está bem, dessa CAUSA, se você preferir”
Brindamos, novamente, e viramos de um só gole, o que restava de nossas taças.
Não era coincidência ...
sábado, 4 de julho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada - Cap 6
Minha coroa dizia que era louca pelas músicas dele, mas homem para ela era o Valdick, o Tarcísio Meira e o mulatinho querido dela, eu, Wadsonzinho.
E tinha também o tal de Zé/Zeca/Zézinho mas esse e nunca soube quem era.
Eu já tinha ganhado corpo, eu nadava, aprendera a fazer exercício com peso com os coroas do Aterro e tinha virado um moreno bonito, sempre queimado de sol. Meu cabelo era bom, ondulado e meus olhos eram castanhos claros. Apesar da minha origem muito humilde, o mundo novo que se abria para mim sugeria que talvez eu conseguisse entrar.
O curso noturno na faculdade de direito no Centro reforçava esse pensamento.
Ainda assim, minha autoestima masculina estava muito longe de ser, o que hoje ela é.
Eu era o aluno mais novo do meu ano e me vestia com roupas muito simples. Nunca percebia olhares interessados das alunas mais velhas da faculdade. Estavam quase sempre exaustas. Pra quem não sabe, curso noturno no Centro é de gente batalhadora da periferia que trabalha o dia inteiro e deixa de fazer refeição pra pagar a faculdade. Gente que dorme no ônibus e que come a quentinha, escondida na cozinha do escritório.
Era o início dos anos 80, meu sonho de mulher era a India Potira, em preto-branco-e-cinza, no Programa do Chacrinha. O “Brasil do Milagre” era muito mais desigual. A TV colorida só pegava na casa dos ricos e na vitrine das lojas de eletrodomésticos.
Aquela segunda-feira porém era especial, pois na terça encontraria a cartomante em sua casa às 13:00.
Fiz questão de ficar deitadão na esteira para pegar um bronze.
Minha coroa, ao meu lado, besuntada de bronzeador barato, com água oxigenada para clarear os pelos das pernas e entretida com a CONTIGO, estava feliz.
A tornozeleira de ouro refletia o sol de meio dia e o esmalte mal pintado nas unhas do pé aparecia, mesmo entre os grãos de areia.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada - Cap 5
Era um risco mas, se acertasse, facilitaria as coisas para mim.
A VÍTIMA É SEMPRE ATRAÍDA PELO OLHAR DA COBRA!, lembrei.
Muitos golpistas, com quem convivi, já tinham falado a respeito.
"Senhora, já percebi que está decidida a muitas coisas.”
“Me corrija se eu estiver errado, mas se houver provas de adultério contra seu marido, a senhora pretende o divórcio, não é isso?”
“Além do poder de seu marido, sua sogra é mais poderosa do que ele e a senhora ainda não sabe como atingi-la, estou certo?”
Ela estremeceu.
“Wadson, como pode ser assim tão frio e observador. Por acaso, o senhor sabe quem eu sou?”.
Observei que, pela primeira vez, ela tinha falado meu nome.
“Não, senhora.”, disse-lhe.
“Tudo o que acabo de lhe falar, foi possível entender do muito pouco que ouvi.”
“A senhora tem um problema muito sério, muito delicado, que envolve sentimentos muito íntimos e reservados, mas que também envolve dinheiro. E...”, fiz uma pausa, “... pela sua aparência e elegância, o dinheiro envolvido não é desprezível.”
Me senti dominando a situação mas, enquanto eu falava, ela havia se recomposto. Por excesso de confiança, eu tinha baixado a guarda e iria pagar por isso.
“Estou impressionada com o que o senhor acaba de me falar.”
Acusei o golpe, mas não me fiz de rogado.
“É que eu conheço um pouco da natureza humana.”
Prossegui, “essa é uma frase de Balzac, foi apenas uma citação, não me queira mal.”
“Claro que não”, disse-me.
“Wadson, eu percebi sua preocupação em aparentar mais do que é. O cinzeiro de cristal baccarat, a citação de Balzac, as unhas feitas e o curso de inglês, em nível tão elementar, formam um conjunto harmonioso para qualquer advogado canalha.”
“Aliás, citando Nelson Rodrigues, TODO CANALHA É MAGRO!”
“Coincidentemente percebi, também é o seu caso.”
Ela conseguira me jogar nas cordas.
Poderia acabar comigo, virando as costas e indo embora.
Se ficasse, seria por causa de seus óbvios interesses, mas não me respeitaria e dificilmente eu estaria advogando para ela quando, por ventura, pusesse a mão no dinheiro.
Busquei uma saída. Uma frase que invertesse aquela situação desfavorável. Se aquela contenda fosse num ringue, naquele momento, quaisquer três juízes que não estivessem comprados de antemão dariam vitória à loura, por unanimidade.
Pensei num gancho de direita que poderia derrubá-la, fazendo com que eu ganhasse a luta.
Ou num golpe certeiro no fígado, fazendo-a sentir dor e, a partir daí, temendo outros golpes mais duros, eu conseguiria levar a luta até o final.
Se isso acontecesse ela me respeitaria. Face ao estrago que já tinha me feito, eu a respeitaria também.
Optei pela segunda tática e contra ataquei, ainda nas cordas.
Intencionalmente tratei-lhe pela terceira pessoa.
“Eu sei que você está sendo humilhada!”, conseguindo que ela recuasse.
“Sua bolsa Louis Vuitton está com o couro soltando na parte inferior”, acertando-lhe o fígado.
“Seus óculos Gucci já saíram de linha há pelo menos 5 anos!”, levando-a para o meio do ringue.
“Se quiser, eu posso ajudá-la, mas você vai começar dizendo o seu nome!” , parando de fustigá-la.
Para a minha surpresa, ela foi além.
“Meu nome é Maria Holanda Swanson. Swanson é da família do meu marido.”
“Mas meu nome de registro e verdadeiro é Marialva Santos”, completou.
Soou o gongo, a luta terminara.
Empate!
Entendi que seria a melhor ocasião para oferecer-lhe um drink.
“Olha", disse-lhe, "no frigobar tenho refrigerante, água mineral, soda, gelo e vodca importada. Tenho tambem uísque escocês e “John” Daniels. Aceita alguma coisa aqui ou aceita um convite para um drink, num bar próximo daqui?”
“Acho que um bar próximo, seria muito bom.”
“Posso usar seu banheiro?”
“Claro, sem problema.”
Aproveitei para examiná-la enquanto se afastava. O salto muito alto tirou-lhe um dos adjetivos que lhe dera, alta.
Os peitos com silicone, os lábios grossos demais e o quadris largos indicavam que não era loura.
Nem fudendo!
Abri a gaveta de minha escrivaninha, peguei o espelho redondo: de um lado normal, do outro aumento, para espremer meus cravos.
Minha aparência, meu cartão de visita, sempre repito.
Ajeitei o cabelo rapidamente, joguei na boca duas “Valdas” e fui fechar a janela, enquanto a aguardava.
Já havia escurecido.
Descemos, escolhemos o bar e entramos.
Aureliano Mailer escreveu.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada - Cap 4
Fui um aluno razoável na escola de 1º. grau em que estudava.
Minha mãe era muito severa comigo e com minha irmã.
Como eu era muito magro e franzino as merendeiras da escola passaram a cuidar de mim, a deixar que eu levasse sobras pra casa e a me fazer agrados. Eu retribuía com um sorriso que funcionava.
“Olha Maria, que guri estropiado!” e me abraçavam com fartura.
Como eu era pequeno, muitas vezes durante os abraços, eu me via com o nariz e as órbitas dos olhos enfiadas no meio daquela peitança, coberta pela blusa suada delas.
Com as professoras não era diferente e em troca da atenção, fazia os deveres e colaborava com elas.
Ganhava lápis, caneta BIC e, às vezes, um beijo com marca de batom.
Minha mãe era muito franzina e não se pintava nunca. Usava saias compridas, frequentava uma igreja batista e me obrigava a ir. Diziam que eu era parecido com ela.
Portanto, meus sonhos eróticos ficavam com as mulheres da escola. Tive muitos sonhos em que eu acordava suado, sufocado com os peitos da merendeira mais gorda ou esmagado pela professora da bunda grande. Na época, não sabia o que fazer com o assunto e minha irmã, 4 anos mais velha. Nunca se propôs a me ensinar nada a respeito.
Ser abraçado daquela maneira pelas mulheres, eu nunca esqueci.
Depois dos 9 anos comecei a me soltar, a ficar até mais tarde na rua, a viver com qualquer moleque do meu bairro. Depois dos 13 anos comecei a crescer, a querer bulinar as amigas de minha irmã, a experimentar todas as coisas possíveis para dar prazer à minha mão e ao meu pau.
Até ir viver com a coroa, a minha vida sexual era igual a de todo mundo do meu bairro em São Gonçalo. Tirar sarro com as minas do bairro, transar de vez em quando com a Laís, que era magrinha, ossuda, mas era a única que dava pros meus amigos e pra mim. Ficar sonhando em sair com as popozudas, mesmo sabendo que elas só estavam afim de quem lhes pudesse bancar algum, um papelote, um rolé de moto ou uma blusa de shopping, sei lá.
Quando chegou a época do alistamento compareci com falta de peso e fui recusado sob a alegação de excesso de tropa. Minha mãe ficou desolada, sem saber o que fazer comigo. Pedi-lhe mais uma vez para conhecer meu pai e ela disse-me que era para eu esquecê-lo, que ele era muito rico e ele não ia querer saber de mim.
Conclui o 2º. Grau tentando ainda agradá-la.
Porém, na semana antes do Ano Novo, conheci a coroa e passei com ela o Réveillon, vendo os fogos do Aterro do Flamengo.
Enquanto isso, minha irmã tinha virado popozuda com tudo o que isso representava na periferia.
Minha coroa era estribada, nortista, dente de ouro na frente, celular na cintura e perfume barato no pescoço. Ela era rude, tinha muito mais dinheiro do que qualquer pessoa com quem eu tivesse convivido até então. Dava um duro danado e me ensinou a correr atrás, que nem ela, para poder usufruir daquilo tudo. Ajudei-a no que pude, arranjei mais fregueses, conseguia no papo diminuir a propina pra fiscalização e com os PM’s que nos davam cobertura fiz amizade que nos custava muito pouco. A coroa sabia reconhecer o quanto lhe ajudara na responsabilidade e no coração.
À noite, quando se deitava comigo, era carinhosa. Gozava com muito esforço, mas, quando conseguia, se ajeitava toda a meu lado, seu corpo amolecia e me chamava de Zé, meu Zezinho, Zeca e enfiava a língua no meu ouvido.
Várias vezes tentei corrigi-la dizendo que meu nome era Wadson, mas com o tempo me acostumei. Sem dúvida ela não me lembrava as merendeiras com quem eu sonhara.
Depois de muito tempo, contei-lhe a história do meu pai, que era rico e que eu não conhecia. Ela não pareceu se surpreender. Tempos depois me falou da faculdade de direito, que eu deveria me inscrever e cursar, para somente então, já formado, me apresentar diante de meu pai.
Assim que pude, fui a São Gonçalo visitar a minha mãe, contar-lhe a novidade que a coroa ia me proporcionar. Ela ficou muito feliz por mim, mas, ainda assim, pareceu-me triste como nunca. Tentei arrancar-lhe o que era sem sucesso. Na saída, encontrei nossa vizinha que acabou me dizendo que minha irmã tinha saído de casa para morar com Nilson, colega meu de rua que agora era membro importante do “movimento”.
Deixei um dinheiro com a minha mãe, disse-lhe que era dinheiro honesto, que trabalhava no trailer com a coroa e que ia levá-la para bem longe dali assim que eu me formasse. Pedi-lhe somente para não dar parte do dinheiro para a igreja.
Voltei para o centro do Rio, no ônibus São Gonçalo - Passeio. Embarquei no ponto inicial e ia saltar no ponto final. De lá, chegaria caminhando até a casa da coroa, onde eu morava. Um único ônibus ligando dois mundos tão diferentes.
Amanhecia quando finalmente consegui dormir. Sonhei que estava com a cara enfiada nos peitos da cartomante gostosa, só que agora eu já sabia o que fazer depois.
Aureliano Mailer escreveu.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Lixo À Beira Da Estrada - Cap 3
Evitei manifestar a impressão que a frase trouxe ao ambiente. Passei os dedos sobre o bigode. Era a preparação de um blefe.
Do outro lado da escrivaninha, ela me olhava buscando algum sinal.
Pedi-lhe que prosseguisse.
"Ele está ameaçando me deixar ... a mim e a nosso filho! "
"Como assim?", perguntei tentando incentivá-la.
Ela não caiu na isca.
"Ele diz que tem vergonha de mim! Eu constantemente me sinto humilhada! E nós nos dávamos tão bem..."
"E a traição que a senhora mencionou?", sabendo que ela acharia que eu estava me convencendo de seu relato.
"Ele...não tem me procurado, à noite."
Resolvi testá-la.
"Mas senhora, quem sabe uma terapia de casal... "
A resposta foi ríspida.
"Porque o senhor acha que eu entraria nesse prédio velho, ficaria sentada nesse escritório poeirento, na frente de um ... Desculpe-me, não preciso de terapia de casal, o senhor já deve saber que eu não vim aqui para isso."
Relaxei.
Ela se desarmara.
"Posso fumar? "
"Fique a vontade. "
Peguei o isqueiro de mesa, peça elegante e incomum que veio no pacote do aluguel, assim como quase tudo dali.
Acendi-lhe o cigarro.
Levantei-me, caminhei até a estante e trouxe-lhe o cinzeiro de cristal baccarat.
Percebi que estava sendo avaliado, conheço as mulheres e elas me deixam tenso.
Deixei que me visse de lado e de costas.
Sou alto, corro 4 a 5 vezes por semana, evito beber chopp em demasia.
Minha aparência, meu cartão de visita, sempre repito.
Perguntei se ela se incomodaria de eu fumar.
Fingindo indiferença, respondeu que não.
Fui até a janela para abri-la um pouco, afastei a cortina para o ar fresco, da tarde de inverno, entrar.
Sentei-me de volta, dei uma longa tragada.
O raio de sol cruzava o escritório e nele a poeira em suspensão subia e descia insinuante.
Olhei para a loura que estava menos tensa.
A bolsa já tinha sido colocada na cadeira ao lado.
"Engraçado, disse ela, há anos não fumo na frente do meu marido..."
Aureliano Mailer, escreveu.
Lixo à beira da estrada – Cap. 2
Minha mãe era da periferia, sempre foi pobre, morreu pobre. Era mãe solteira de minha irmã e de mim.
Meu pai morava em Ipanema, era de família rica, nasceu rico, morreu rico.
Minha mãe trabalhava na casa dos pais dele. Meu pai, quando engravidou minha mãe era casado, tinha 2 filhas pequenas. Minha mãe contava que meu pai não morava lá. Só ia à casa dos pais dele, nos fins de semana. Ainda assim, a engravidou. Naturalmente, não apoiou minha mãe quando a barriga dela cresceu demais. Deixou que fosse humilhada e expulsa de lá. E continuou casado, eu acho.
Com o tempo descobri que nessa miscigenação social ninguém nasce mulato. Ou nasce pobre ou nasce rico.
Eu fiquei em Itaúna, São Gonçalo.
Em outras palavras, eu fiquei no lado social da minha mãe.
Odeio ser chamado de mulato. Mulato é o caralho!
Ainda assim, tentei escapar.
Quando já era adolescente eu frequentava a Praia do Flamengo. Foi por lá que eu conheci uma coroa. Ela tinha um trailer com freguesia fiel, me deu boa vida e fui me ajeitando com ela. Com o tempo, me incentivou a fazer o vestibular, pagou uma faculdade de direito perto do Campo de Santana e em troca, lhe dei minha juventude. Nos divertíamos na rua quando casais de caretas nos olhavam com desaprovação. Eu a chamava de tia, tascava-lhe um beijão na boca e caíamos na gargalhada. E graças a ela, descobri meu destino.
Em uma tarde, de meio de semana, levou-me a um apê de sala e quarto de uma cartomante na Rua do Matoso, perto da Praça da Bandeira, a quem pagou para que fizesse meu mapa astral. Uma semana depois, voltei lá sozinho, depois de sair da faculdade. Nesse segundo encontro, descobri que ela não era cartomante, que meu ascendente era em Sagitário, que a mulher era bem mais gostosa que a minha coroa e que minha lua era em Aquário. Os odores de incenso e o perfume forte que ela tinha, eu nunca tinha sentido. Ela disse que minha vida ia mudar em breve e que eu era um sonhador. Passou a mão no meu rosto de um jeito estranho, disse-me que eu tinha cara de sonso. Ela tinha uma mão macia, grande e quente.
Disse-lhe que precisava voltar para o trailer, pois era sexta-feira e o fim de semana iam ser de trabalho. Perguntou-me onde ficava o trailer. Expliquei. Sorriu dizendo que não costumava freqüentar a praia do Flamengo, mas que talvez passasse por lá, só pra me ver. Fiquei em pé, junto à porta de saida, paguei-lhe o combinado e saí desgovernado.
Peguei o ônibus errado, cheguei tarde ao trailer, com a cabeça latejando e acreditando em cada palavra que ela tinha me falado. Minha vida ia mudar.
Passei a noite trabalhando e falando pouco, a coroa notou, quis saber o que era, disse-lhe que não era nada. Quando o movimento acabou recolhemos tudo, fechamos o trailer e fomos para casa dela, que ficava a uns 2 kms dali, perto dos Arcos. Como percebi a inquietação da coroa, para não dar bandeira, me aconcheguei a seu lado e transamos com sofreguidão. Passado um tempo, ela adormeceu e eu não.
Saí sem barulho do quarto e fui fumar no quintal. Passei a noite pensando em meu pai. E se ele me reconheceria como filho. Dali a 1 ano eu iria me formar e ele me arranjaria um emprego bom. Fumei mais um cigarro e fui me deitar.
O fim de semana seguiu normalmente, o gelo, a cerveja, os clientes antigos e novos, a preocupação com o calote, o “agrado” à fiscalização municipal, o cheiro de gordura, a água fria do mar, o esgoto a céu aberto, tudo tão perto de nós.
Em meio à muvuca de domingo, de repente senti a mão macia, grande e quente segurar meu braço. Virei-me, sabendo quem era. O sorriso dela estava ainda mais largo e generoso. Sorrindo, pediu-me uma cerveja com dois copos apontando para a mesa 3. Estava com uma amiga tão ou mais gostosa do que ela. Fui servi-las e percebi que falavam de mim. Disse-me para que eu passasse na casa dela na terça-feira seguinte, depois das 13:00. Jogaria Búzios para mim.
Perguntou-me quanto era. Pagou a cerveja na hora e me olhou de cima a baixo.
Gelei. Voltei para o trailer, conversei com a minha coroa qualquer coisa sem importância. Meu pau ficou duro, terrivelmente. Fui para trás do trailer, mexi no gelo, tentei me acalmar e assim que pude, voltei. Disfarçando, olhei em direção a mesa 3. Estava vazia com a cerveja ainda nos copos.
Fui até lá recolher os copos e a garrafa, buscando enxergá-las mesmo que a distância. Não as vi. Bebi a cerveja que restava no copo, enquanto as procurava. Nunca faço isso, mas aquela situação tinha me tirado do sério. Fui para trás do trailer. Enchi seu copo com o que restava na garrafa. Escolhi colocar minha boca sobre a marca de batom que ela havia deixado. Ainda alterado, fiz o mesmo com o copo da amiga.
Ela estava certa, minha vida ia mudar.
Aureliano Mailer escreveu.
sábado, 13 de junho de 2009
Lixo à beira da estrada - Cap. 1
Estava decidida, sabia quem eu era, da minha reputação.
Nada mais sabia sobre mim, descobri isso pouco depois.
Tentei interromper bruscamente o curso de inglês que faço pela internet. Não fui rápido como queria e temi que ela percebesse o que era. Percebi que ouviu parte do diálogo.
Gelei, porque precisava de novos clientes com urgência.
Me recompus, convidei-a a sentar e perguntei-lhe o que desejava.
Ela não respondeu. Estava olhando o ambiente. O pé direito alto, a cortina de tecido pesado até o chão, a grande escrivaninha de madeira escura, o tampo de vidro trincado, o tapete imitando persa, empoeirado.
Tirou os óculos escuros.
Vi seus olhos castanhos, o excesso de maquiagem, a roupa de boa qualidade, as jóias douradas, gargantilha, pulseira, aliança na mão esquerda.
Pensei que o senhor fosse mais jovem, disse.
"E porque deveria ser? ", respondi.
"Nada, preciso de respostas rápidas, é isso. "
"Qual é o seu problema? "
"Preciso provar que meu marido me trai... "
"Senhora, não sou detetive, posso indicar-lhe quem trabalha nesse ramo."
"Meu marido é um homem poderoso, tem muitas posses, a mãe dele me odeia e eu consegui casar com ele porque engravidei."
Perguntei-lhe quem tinha me indicado.
Novamente, evitou responder.
Há cerca de 6 meses atrás, tinha me tornado conhecido por ter defendido a viúva acusada de matar o marido ganhador da mega-sena, aquele de Itaboraí que andava de cadeira de rodas.
Aproveitei a notoriedade do caso, aos poucos fui me afastando da curriola de informantes com quem trabalhava e achei esse escritório de advocacia fechado há quase 10 anos. Consegui alugá-lo perguntando aos porteiros desses inúmeros prédios antigos no centro da cidade, se sabiam de alguma sala disponível.
Foi fácil.
Com a bolada que recebi da viúva, comprei um Vectra semi-novo, tirei o anel de formatura da mão do agiota e mudei todo o meu guarda roupa. Corto regularmente meu cabelo num salão do centro, mantenho o bigode aparado e faço as mãos toda a semana, valoriza o anel de advogado. Minha aparência, meu cartão de visita, sempre repito.
Aluguei um apê na Gloria, mal mobiliado e encardido como o meu antigo terno marron.
De lá para cá, vários trambiqueiros procuraram meus préstimos profissionais, mas decidido a mudar de vida, só me dispus a pegar causas onde o cliente pudesse pagar parte de meus honorários antecipadamente.
Ajudei a uma moça bem jovem a se livrar de uma extorsão do proprietário do imóvel em que ela morava. O pretenso senhorio era procurador de uma viúva, não passava recibo dos aluguéis recebidos e foi fácil reverter a situação, ameaçá-lo e receber uma propina adicional em troca da minha discrição. A moça pagou-me de outro modo, era profissional e nosso acordo funcionou por algum tempo.
Meu escritório era velho e não me ajudava e assim, caminhava a passos acelerados para os braços amargos de meu passado, do outro lado da Baía de Guanabara.
Na última semana, a viúva tinha voltado aos noticiários pois acabara de sair do presídio feminino. Consegui-lhe uma condicional. Só eu sabia o quanto ela havia gasto para se livrar da prisão. Quase tudo segundo ela afirmava, do muito que tinha se apropriado do marido morto. Seu antigo amante, este sim continuava preso.
A loura alta olhava para mim em silêncio.
Imaginei que essa poderia ser a razão para ela estar ali.
Percebi, que estava ali uma chance de adiar meu retorno a Itaboraí.
Concentrei-me nela, contendo minhas suspeitas.
"Bem, senhora, pela sua atitude e com a minha experiência, posso ouvi-la um pouco mais. A propósito, não sou velho como aparento, sou muito vivido", disse-lhe com firmeza.
"A mim não importa sua idade. Tenho pressa. Posso iniciar o meu relato?"
Seus lábios estavam lívidos e ainda segurava com firmeza a bolsa Louis Vuitton.
Aureliano Mailer, escreveu.




